Carta, V.

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Na última vez em que escrevi, eu disse que iria para algum lugar nas extremidades do país. Pois bem, estou vivendo, literalmente, na fronteira do universo.

Não sei exatamente como, mas consegui encontrar outra cabana bem próxima à beira do mar. Minha primeira conclusão foi de que essa cabana estava abandonada há muitos anos, desordem por todo lado, a ponto de não saber por onde caminhar. Pelo barulho de cada passo, percebi que o piso era de madeira. Os móveis também eram todos de madeira e estavam fora do lugar. As portas abertas, as janelas quebradas, o teto com goteiras e algumas lenhas ao lado da lareira.

Algo bem curioso foi que as paredes estavam repletas de fotografias, e não somente isso,  todos os quadros, sem exceção, estavam completamente intactos de qualquer resquício de poeira, perfeitamente limpos e brilhando, como se o tempo não os tivesse atingido.

As fotografias espalhadas pelas paredes não parecem recentes, e os lugares em que as pessoas estão são simples e aconchegantes. Tudo parece ter muita harmonia e me faz lembrar que o que torna o ambiente bonito ou agradável não é o ambiente em si, mas as pessoas que nele estão. Não posso afirmar que as fotos foram tiradas neste universo, porque ainda não estive em metade dos lugares que desejo conhecer.

Algo interessante aguçou minha curiosidade. No momento em que tirei um dos quadros da parede para observar cada detalhe, um envelope que estava atrás dele caiu ao chão.

Peguei o envelope, e com ele em minhas mãos percebi que minha curiosidade agora era mais pelo que havia dentro do envelope, do que propriamente os detalhes da fotografia.

Todo e qualquer vestígio de ética ou moral que eu ainda tinha no depósito da alma, foi embora, pois não hesitei em abrir e ler o que havia dentro daquele papel dobrado.

Estava endereçado, com data e ano, e no meio do envelope havia a numeração cinco — dando a entender que talvez pudessem existir a quarta e a terceira em algum lugar. E quem sabe a sexta e a sétima também não poderiam existir?

Carta, V.
Senhorita, o tempo curto nos afastou, mas o longo tempo longe, não me fez esquecê-la...

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