Questão de tempo
Não estava nada programado, mas o dia 01 de janeiro de 2026 me levou a um filme sobre o tempo, mas especificamente sobre viagem no tempo, não sobre o futuro, mas viajar ao passado, como numa máquina do tempo. Minha virada de ano foi incomum, longe dos principais familiares, longe dos melhores abraços. E a fim de acabar com o tédio de uma tarde do primeiro dia do ano, fui levado a assistir um filme. Encontrei um que eu já tinha marcado para assistir havia um bom tempo, e a oportunidade deu certo.
O nome do filme é Questão de Tempo. Basicamente, a ideia central do filme é a reflexão sobre o passado, sobre escolhas que influenciaram a vida do protagonista no presente. O filme conta a história de um jovem chamado Tim, que nasce em uma família em que os homens detêm a habilidade de voltar ao passado. Seu avô viajou a fim de acumular riqueza, seu pai a fim de conseguir ler todos os livros o quanto desejava, e Tim, antes de começar a viajar no tempo, precisa escolher qual seria a sua busca no tempo, seu objetivo na vida.
Pois bem, ele escolheu encontrar a mulher da sua vida e fazer dar certo. Sua primeira paixão foi uma garota chamada Charlotte. Ele volta no tempo em busca de consertar as coisas e conquistá-la, e a cada viagem no tempo percebe que sua paixão não é correspondida e que as coisas entre os dois não avançam, basicamente como se o destino estivesse a favor de Tim, já que o verdadeiro amor de sua vida era outra, então, nenhum esforço seria suficiente para fazer Charlotte amá-lo. A narração do filme, em dado momento diz: “Nem todas as viagens no tempo do mundo podem fazer alguém te amar”.
Durante a trama, Tim vai a um bar com seu amigo e então conhece Mary, aquela que seria o amor da sua vida. Tim pega o contato de Mary e volta em direção ao seu apartamento, quando chega ao apartamento que dividia com seu amigo, percebe que a peça dirigida por ele tinha sido um fracasso. A fim de ajudá-lo, Tim viaja no tempo e conserta o enredo da peça e tudo sai muito bem. Porém, Tim percebe que ao ajudar o amigo consertando o passado, ele perde Mary, que já estava namorando outro cara. Então ele volta novamente no tempo e se esforça ainda mais para ajudar o amigo e, ao mesmo tempo não perder Mary.
Esse filme me fez lembrar do quanto gosto de filmes que tratam de viagem no tempo, de viagem ao passado. Fez lembrar também do quanto eu gosto do filme O Homem do Futuro, estrelado por Wagner Moura, um cientista que volta no tempo para reconquistar Helena. O personagem, João (Wagner Moura), também percebe que mudar o passado altera o futuro com diversas consequências, e por isso volta diversas vezes ao passado.
Dizem que a vida adulta é resultado de infinitas experiências na infância, boas ou ruins. Pois bem, minha infância e adolescência foram das melhores. Cresci com uma irmã mais velha apaixonada por ser professora, que ensinava outras crianças da sua mesma idade e que me batia sempre que eu lhe despertava o apetite. Meu pai, foi um apaixonado por minha mãe, nossa casa tinha uma sala simples, uma cozinha sempre abastecida pelo básico, e beijos e brigas com muita abundância. Meu pai foi um homem que amava pessoas e se importava com a justiça e causas sociais. Ele sempre lia para minha mãe poemas dos mais inspirados nessa mesma sala simples, deitado sobre a rede que jamais poderia ser tirada dali, a menos que fosse para lavar e somente quando ele autorizasse.
Sempre que encontrava algo interessante em seus velhos livros, nos jornais ou em qualquer outra fonte, dizia: “Jeane, vem ouvir esse trecho…”, ou até mesmo: “Lenir, Mozart, vem ouvir esse trecho…”. Meu interesse por história vem daí... Esforçou-se consideravelmente em casar com minha mãe, já que parte da família dela não queria que isso acontecesse. Teve muitas mulheres durante a vida que poderiam ter sido para sempre, mas ele sabia que não poderia perder aquele rosto delicado de olhos verdes.
Enquanto deitado na rede, olhava para o telhado e fazia planos em voz alta de sair com minha mãe e visitar cidades do Maranhão, cidade de Bacabal em que ele nasceu e outras que lhe fossem de interesse. Escrevia cartas a ela quando ainda namoravam e também depois de casados. Em uma dessas cartas, ele a compara a uma esmeralda, minha querida irmã a uma safira, e eu a um ouro mil. Ele declamava seu poema preferido, decorado, por inúmeras vezes na vida. E sempre que o concluía, dizia: “Esse poema é o poema para colocarem na lápide do meu túmulo”, e assim foi feito.
Não negou, durante a vida dizer “eu te amo” para os dois filhos, enquanto beijava nossa cabeça, sentados em uma de suas pernas. Contava que chorou bastante na juventude quando Elvis Presley morreu. Dizia que Can’t Help Falling in Love era uma de suas músicas preferidas, e ele cantarolava na sala de casa com seu inglês completamente imperfeito. Um pequeno trecho traduzido diz assim: “Pegue minha mão, tome minha vida inteira também, porque eu não consigo evitar de me apaixonar por você”.
Em uma certa noite aleatória de filmes enquanto assistíamos na sala, ele chegou e foi direto para a cozinha. A trilha sonora do filme tocava exatamente Can’t Help Falling in Love. Enquanto a música tocava, ele se encostou no portal que dividia a sala da cozinha e chorou copiosamente ao ouvi-la, sempre que ele chorava era muito difícil pensar em fazer alguma coisa. Lembro-me que na minha adolescência eu estava olhando algumas fotos antigas em algum álbum, e por acaso encontrei uma que tinha meu avô, uma foto bem bonita em que meu avô esta sentado em uma mesa rodeada de amigos, eu decidi mostrar para meu pai afim de que ele se alegrasse, mas no mesmo instante em que eu lhe mostrava a foto, ele chorou, e pediu que eu não mostrasse aquilo a ele. A história por trás disso, é para um outro momento...
O melhor registro que temos em vídeo dele com minha mãe é exatamente o retrato de como era a relação do casal. Ele com seu colete de trabalho, com uma calça jeans visivelmente bem usada, minha mãe com uma blusa confortável, sem nada segurando seus grandes seios, e uma calça que sempre lhe acompanhava, dançando na sala de casa ao som do refrão da belíssima música da Nayara Azevedo, Tô Sarrando em Você Mentalmente. Não vou tentar descrever os passos que os dois faziam, pois crianças podem chegar a ler este texto.
Não consigo fugir do que me formou até aqui, se a infância é a fase crucial para a construção da personalidade, então foi isso que me fez ser quem eu sou hoje, sempre convivendo com um homem e duas mulheres cheios de qualidades e defeitos. Não consigo evitar o fato de que já entreguei flores na infância para minha mãe de joelhos, dizendo que a amava. Ou de como já escrevi cartas a ela, em demonstração do amor que preenchia o coração de uma criança que amava sua mãe, e de igual modo para minha querida irmã.
Não consigo evitar o fato de entregar flores para minha avó em seu aniversário e vê-la chorando, dizendo que nunca ninguém tinha lhe entregado um buquê de flores.
Não consigo evitar o fato de escrever para aquela que ainda hei de encontrar, pois cada dia que passa é menos tempo na vida que terei em desfrutar verdadeiramente do pôr do sol.
Certa vez eu li, que escrever é um ato de coragem. Eu concordo com isso, é preciso coragem para olhar o interior e escrever sobre coisas que atravessam o coração. Ainda bem novo tive a alegria de ter tido o contato com o diário da Anne Frank, e observar de como ela relatava sua vivencia no esconderijo fugindo dos nazistas, tomar conhecimento dessa obra pode ter me influenciado de alguma forma a gostar de escrever, um livro que provavelmente era da minha querida irmã.
Eu nasci em uma família amorosa, na qual a minha principal referencia de intelectualidade era meu pai, de amor, minha mãe, e minha querida irmã é o retrato do amor que existe entre irmãos, que adjetivo nenhum é possível descrever.
Eu sei, sentimentalismo excessivo é chato e causa náuseas, mas fui honesto comigo mesmo no que se refere a produção do texto, ainda assim, eu me esforço no que posso e vou escrevendo sempre que consigo.
Questão de tempo, na verdade foi só o gatilho, para lembranças que estão na memória que me ajudam a refletir sobre quais circunstâncias em que fui formado, e que escrever é a única forma real de voltar no tempo.

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