As cortinas se fecharão

Eu não entendo os caminhos da dor e do sofrimento. Mas me parece que elas agem como numa peça teatral.


Desde a primeira cena a dor tenta se destacar como protagonista, atraindo os olhares e muita atenção do seu público.  Para que o espetáculo obtenha sucesso é preciso que ela haja de forma que a compreensão não seja de imediato. É preciso uma tortura bem lenta, uma angústia aterrorizante, e se possível, fazê-los chorar até soluçar, antes mesmo que algum espectador consiga entender o motivo por trás de tanta dor.


Já o sofrimento é responsável pelas cenas vindouras, entra no palco ainda com a dor no ápice de sua encenação, tentando não deixar que a poeira baixe e as emoções caem no campo da meditação, ou que o medo seja lançado no mar de boas memórias.

Quanto mais o sofrimento se prolongar, mais eficiente ele se mostrará. Sua busca é a de criar a sensação de sofrimento ininterrupto para aqueles que foram ao teatro por vontade própria ,de algo perpétuo para aqueles que foram como convidados, e de algo eterno para aqueles que nem queriam estar ali.


Diferente dos ótimos diretores que já existiram em outros universos, nesse universo a direção, o roteiro e o enredo é em tempo real, não se pode ensaiar, não se pode decorar falas, e muito menos de saber como a história termina ou qual é a última cena antes das cortinas baixarem.  


Diferente dos ótimos diretores que já existiram, Esse, nunca deixa que o papel principal seja de um protagonista, ninguém precisa se preocupar em querer se destacar. Ele apenas pede que os atores envolvidos em toda a trama não desanimem, e em tempo real, ele socorre.


As cortinas do teatro pode não terem se fechado ainda, é porque nesse universo ela vai se fechando aos poucos, as vezes imperceptível, mas ela está se fechando, como numa cicatriz, demora cicatrizar, mas cicatriza.

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