Se eu pudesse

Se eu pudesse, eu seria um vira-lata de uma noite qualquer de chuva intensa, agasalhando-me com o meu próprio corpo debaixo de um alpendre. E estaria acompanhado por um garoto e um homem, que conversam sobre o tempo que ainda passarão ali, debaixo do alpendre. Eles estão visivelmente mais molhados e, consequentemente com mais frio do que eu possa sentir, mais frustrados do que eu pudesse estar, e com mais amor um pelo outro do que eu possa um dia experimentar. Aliás, eu sou só um vira-lata debaixo de um alpendre, esperando a chuva passar.

Se eu pudesse, eu estaria ali debaixo do alpendre, tentando entender por que os dois homens foram embora e deixaram-me novamente sozinho, debaixo do alpendre, antes mesmo da razão pela qual fizeram aqueles dois passarem um tempo comigo, debaixo do alpendre, ter acabado.

O espaço ali era pequeno e não caberia mais nenhum ser da minha espécie, muito menos da deles. Até o objeto ofensivo que insisto em alcançar nas trincheiras do meu bairro não tinha lugar para ficar. Só tinha eu, um vira-lata, um garoto me olhando assustado e um homem molhado, debaixo do alpendre.

Se eu pudesse, eu seria um vira-lata de esquina, sendo alimentado por velhos que ficam na esquina, que conversam e fumam na esquina, que passam a madrugada papeando sobre política, religião e novelas , de tudo menos de mulher,  na esquina.

Se eu pudesse, eu seria um vira-lata de borracharia, para ficar do lado de um garoto e do homem que, após quilômetros empurrando aquele objeto ofensivo, chegariam ali exaustos e suados para procurarem conserto na borracharia.

Se eu pudesse, eu seria um vira-lata de açougue, para ficar na calçada e poder visualizar o homem e o garoto comprando o alimento do almoço já atrasado, e o que sobrasse daquilo pro jantar. E demorarem horas conversando sobre assuntos corriqueiros, como se o horário de meio-dia não fosse um reflexo da fome e do desespero, e eu vendo tudo pela calçada do açougueiro.

Se eu pudesse, eu seria um vira-lata de velório, para fazer companhia para o garoto e seus sonhos ilusórios. Se eu pudesse, eu seria um vira-lata de verdade, para conviver todos os dias com o garoto na sua universidade.

Mas, no fim das contas, eu não sou um vira-lata. 

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